Odin dai-me paciência!
Já era a sétima vez que nós parávamos para esperar o velho tomar fôlego, e já estava me arrependendo de ter defendido tanto o seu direito de vir com a gente, o que ontem parecia uma decisão tão nobre hoje está mais pra uma pedra pontiaguda dentro de um sapato.
Fomos contratados pelo chefe de uma vila ao norte da cidade de Hyndegard, aparentemente a plantação e os animais tem sido afetados por uma espécie de praga, os animais passam a exibir sinais de agressividade cada vez mais constantes, as plantas assumem uma coloração vermelha, as pessoas que chegaram a se alimentar destes dois ficaram em um estado de loucura e fúria, precisei usar de um valor razoável de força pra conter um deles, tirando-me por base eu acredito que um infectado teria a força de 4 homens.
As pistas nos foram dadas pelo próprio líder da vila, aparentemente tinha algo a ver com uma estrela que teria caído do céu a cerca de 1 mês atrás, a idéia de ajudar toda uma vila já me interessou, as peças de ouro oferecidas foram o fator que faltava para convencer meus amigos. Quando estávamos de saída, um senhor de idade já bem avançada se aproximou e com um tom bem raivoso praguejou que tinha que ir conosco para vingar sua amada Marilú, após um pouco de discussão interna acabamos por aceitar o irredutível senhor, que parecia dominado pelo ódio e pelo sentimento de vingança, eu logo percebi que ele mal tinha físico pra andar por mais de 10 minutos, quanto mais percorrer meio quilômetro até o local onde a estrela teria caído. Seja como for, foi impossível deixar o velho na cidade, até os outros aldeões já tinham tomado partido dele.
A viagem de ida foi a mais longa que eu já fiz, sendo memorável as estórias do velho e de sua querida Marilú, que eventualmente ficamos sabendo que se tratava de um simples galináceo que já tinha dado alguns prêmios ao seu dono na feira estadual, num misto de raiva e indignação acabamos por rir muito da situação e optamos por levar o velho senhor para pelo menos servir como testemunha de nossos esforços, caso o líder da vila tentasse empurrar um desconto.
Ao chegar no que seria o local onde a estrela tinha caído, encontramos uma fenda no solo, a partir desta fenda, seguiam diversos canais subterrâneos, se não fosse pelo nosso xamã druida com certeza estaríamos perdidos, tenho que lembrar de fazer uma oferenda aos espíritos da natureza em honra de sua proteção.
Talvez por ainda estarmos contando piadas sobre o destino trágico que teria sofrido a pobre da Marilú, acabamos por não perceber que estávamos caindo em uma armadilha até ser tarde demais, dezenas de seres semelhantes a insetos nos atacaram, minha fiel espada ainda conseguiu derrubar no mínimo 15 deles antes de eu desmaiar, pelo mesmo destino caíram meus amigos, mesmo as magias poderosas de nosso elementarista não conseguiram nos garantir proteção, tentei ainda procurar o velho senhor mas a quantidade de monstros bloqueou minha visão.
Acordado a força por um balde do que eu espero sinceramente ser água, eu sinto o meu corpo todo doer, devo ter levado mais alguns golpes mas não conseguir sentir pois estava variando em meu estado de consciência, olhei para os lados e ví meus amigos, ví também o velho senhor bem abatido, mal pude entender se ele estava vivo ou não, mas com certeza estava inconsciente.
De repente eu senti medo, senti a sensação de ter a pele de meu corpo arrancada e salgada só para ser posta de novo no lugar, eu percebi que não era só eu que estava sentindo isso pois consegui ouvir os gritos de agonia dos meus companheiros misturados com os meus.
Uma voz horrível parecia esmagar meu cérebro com uma garra gélida, essa voz dizia algo sobre nós sermos os primeiros a terem a honra de servir a Tormenta, seja lá o que isso for, foi quando eu ouvi uma voz também irritante, porém irritante de uma maneira bem diferente dizer: "Hey, eu e você, agora", a dor parou de repente, eu olhei pra criatura que parecia ser o líder dos monstros e de alguma maneira eu percebi que ele estava confuso. Olhei pros lados e vi o velho senhor olhando pro monstro, eu também ví a boca dele se mexer mas eu não acreditei no que ele falava "Que foi? tá surdo? eu disse EU E VOCÊ, PORRADA, AGORA!!", os dez segundos que ocorreram a partir dessa cena simplesmente não consegui entender, eu vi o velho senhor se soltar a força dos monstros que o estavam segurando, eu vi ele arrancar o braço de um deles e brandir como se fosse uma arma, eu vi o líder dos monstros por simples reflexo jogar uma poderosa magia de desintegração na cara do velho senhor, e EU VÍ que a única reação ao receber o raio na cara foi limpar a meleca que estava escorrendo pelo seu nariz, eu vi os outros monstros atacarem o velho senhor, assim como eu ví essas criaturas que eu tive tanta dificuldade de cortar caírem como moscas, eu ví o líder dos monstros invocar poderes que fariam meu coração parar só de pensar em ser alvo daquilo, foi quando eu ví que o velho senhor começar a brandir sua arma improvisada na direção do líder dos monstros, EU VÍ O QUE PARECIA SER UMA CARA DE EXTREMA DOR que o líder dos monstros fez ao ser atingindo, eu ví o desespero dele ao criar um portal num piscar de um olho, EU VÍ o velho senhor METER O BRAÇO PRA DENTRO DO PORTAL E PUXAR O LÍDER DOS MONSTROS DE VOLTA, eu acredito que eu ví o monstro implorar pela sua vida, eu ví o velho senhor dar o golpe de misericórdia.
Ainda paralisado pelo fato do meu cérebro ainda estar tentando compreender o que teria acontecido na minha frente, o velho senhor se aproximou e disse: "Tipo, se eu fosse vocês devolvia um pouco do dinheiro, aquela vila vai precisar de um pouco de ajuda pra reconstruir as fazendas e comprar mais gado, valeu a carona, até". E desapareceu em uma das vários caminhos subterrâneos, ninguém jamais acreditou na minha história, o que eu não me surpreendo a única coisa que eu me apego é o nome daquele velho senhor, ele se chamava Yalw... ou algo assim.
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